
Meu nome é Frederico Machado, ala-direito e capitão do maior time de futebol de salão que o curso de Comunicação Social da UFMG já viu jogar. Mas alguns dos meus companheiros de time não são tão atletas assim. Exageram na bebida, decidem dirigir e me colocam em situações, digamos, embaraçosas. Foi o que aconteceu na noite do dia 26/08/05. O som do carro estava alto. Havia chovido um pouco e o asfalto parecia escorregadio. Depois do semáforo, um retorno proibido e uma árvore no meio do caminho. O forte impacto não deixa ninguém ferido. Subitamente, o motorista me passa o celular: “Está discando para a minha casa. Avisa pra minha mãe o que aconteceu e que estou bem”. Sem ter muito tempo para entender a situação e pensar em um bom lead para aquela “notícia” (era uma sexta-feira e ainda não tinha entendido essa história que jornalista não tem folga), seguro o telefone e respiro fundo. Minhas reflexões são interrompidas por uma voz ainda sonolenta. Titubeio no início, mas falo com firmeza: “Boa noite, aqui quem está falando é o Fred, amigo do seu filho”. Mesmo escolhendo minuciosamente cada palavra, ouço o barulho do telefone caindo e a voz de uma mãe desesperada ao fundo: “nosso filho bateu o carro e quem ligou não foi ele”. Fui até capaz de imaginar o que passou pela cabeça dela, que acabara de ser despertada. O pai, mais ponderado e sem me interromper, consegue escutar toda a história e explico que está tudo bem. Fato é que nunca mais entrei em um carro com um motorista bêbado e que ainda evito ligar para a casa desse amigo na parte da noite…
Já em outro carro e dessa vez no volante, olho para um termômetro desses de rua que indica trinta e cinco graus. Era a manhã do dia 12/06/07, um dos sábados mais quentes dos últimos anos, como disse a moça da previsão do tempo no telejornal. Mas nem ela e nem os mais potentes satélites conseguiriam prever como a temperatura iria aumentar naquele dia. A grande final. Quarenta minutos que nos separavam novamente da glória. O esforço de todo um semestre jogado ali, contra os calouros do segundo período que começavam a estudar as teorias da comunicação e nem conheciam Marshall McLuhan, teórico que dava nome ao torneio que disputávamos. Mas, se de teoria eles não eram lá essas coisas, na prática vinham muito bem. Não sabiam que o meio era a mensagem, mas entendiam muito bem de futebol, esbanjando preparo físico e uma campanha invicta. Nós, tricampeões e do sexto período, já compensávamos a correria com toque de bola refinado. Para piorar, nosso principal jogador havia sido expulso infantilmente na semi-final e desfalcaria a equipe. A partida foi uma batalha. Cartões vermelhos para ambos os lados. Conseguimos transformar a tórrida quadra em um frio tabuleiro de xadrez, tamanha a necessidade de se calcular os riscos de cada jogada. A igualdade no placar teimava em nos mostrar que ninguém mereceria perder. Mas, faltando dois minutos para o fim, um pênalti duvidoso para a equipe adversária. Um sinal de que seríamos nós os vencidos? Toma posição o artilheiro do campeonato. O apito do juiz ecoa na minha cabeça. Nosso goleiro parece nervoso, mas consegue operar seu primeiro milagre em três anos jogando conosco. A bola resvala em suas mãos e explode na trave. Na volta, como que por ironia do destino, ela cai nos pés do próprio jogador que cometera o pênalti. Sozinho, ele avança, dribla o goleiro e empurra para as redes vazias. A taça do tradicional torneio McLuhan estava em minhas mãos pela quarta vez.
Escolhi jornalismo como profissão porque certas histórias precisam ser contadas. Assim como o atacante deve estar preparado para bater um pênalti que define um torneio, alguém deve estar preparado para contar essas histórias. Seja depois de um acidente ou de uma final de campeonato. Afinal de contas, nunca se sabe quem estará do outro lado da linha em uma ligação de madrugada ou quando um defensor destrambelhado poderá fazer o gol do título e possibilitar que eu levante o caneco novamente.


