Aqui você encontra algumas crônicas escritas por mim durante a faculdade…Algumas publicadas, outras enviadas por email para poucas pessoas…Com o blog, elas ganham vida na web e ficam a disposição de quem tiver interessado!
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Vale da superação (Maio de 2008)
O Vale do Jequitinhonha é popularmente conhecido como o Vale da Pobreza. Região com o pior IDH de Minas e um dos piores do Brasil, o Vale geralmente aparece na mídia com matérias que mostram o solo rachado pela falta de água, esqueletos de gado apodrecendo no pasto seco e o sofrimento das famílias que acabam lutando não para viver, mas para sobreviver. Mas, no último sábado (02/05), o Vale da Pobreza foi visto em rede nacional como um lugar diferente, algo além de sofrimento. O responsável por essa façanha foi Éder Coimbra, garoto de 14 anos, estudante da sétima série da Escola Municipal Ramiro Lopes, em Padre Paraíso, cidade cravada no Vale do Jequitinhonha com menos de vinte mil habitantes. Éder está na final do Soletrando, o concurso de soletração do programa “Caldeirão do Huck”.
Pouco mais de dois meses atrás, trabalhei na seletiva mineira que escolheria o único candidato a representar o estado nas eliminatórias do programa. Foi um dia de trabalho pesado. Começando pela manhã e terminando já de noite. Dia em que perdi dois churrascos por conta dessa eliminatória. Dia em que vi mães orgulhosas pelos filhos estudiosos. Dia em que vi outras mães severas por demais com alguns erros dos eliminados que subiam as escadas aos prantos, desconsolados com a derrota. Dia em que cheguei a torcer contra o garoto Éder, que teimava em desafiar o dicionário, a gramática e todos seus oponentes soletrando palavras inimagináveis e prolongando meu trabalho em pleno sábado. Mas esse também foi o dia que considero especial por ter me tornado “testemunha ocular” de tanta força de vontade. Éder é calado, demonstra timidamente suas emoções. Pouco vibrou depois de passar para a grande final do programa, a ser realizada no dia 31/05. Sabe como ninguém a pressão que está sobre suas costas e a administra com maestria. Tem o dom de ensinar mesmo falando pouco, sem proferir aqueles discursos longos, cheios de gabo, que estamos acostumados a escutar nas universidades por certos professores…Está às vésperas de ganhar 100 mil reais para serem investidos em sua educação. E, a medir pelo que vi naquele sábado, não se trata de um investimento de risco…O retorno seria garantido.
Estudiosos dizem que Machado de Assis, autor de origem humilde e que dá nome ao troféu que o garoto pode ganhar no fim deste mês, começou a estudar tardiamente nos intervalos do horário de trabalho do colégio onde trabalhava vendendo doces em São Cristóvão, no Rio de Janeiro…Uma pena que tantos Machados e Éderes estejam perdidos por aí esperando por uma oportunidade para “soletrar” S-U-P-E-R-A-Ç-Ã-O.
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“É triste, mas é verdade…” (Carnaval de 2008)
Sim Zequinha. É triste, mas é verdade que nós, os garotos criados com as avós, como você mesmo diz, tenhamos tão pouco contato com o interior do país e com gente que nos acrescenta tanto. Mas antes de falar disso façamos as devidas apresentações. Para você que lê esse texto e não conhece o ilustre Zequinha, não se preocupe. O Brasil está cheio de Zequinhas.
Zequinha é um daqueles caipiras no sentido gostoso da palavra. Vive na hospitaleira Tupaciguara, cidade de vinte e poucos mil habitantes cravada no triângulo mineiro e para onde fui me aventurar nesse carnaval. Quatro dias distante de telefone celular e das minhas quatro caixas de emails, que acumulavam incríveis oitenta e três mensagens na volta.
Mais precisamente, ele vive na chácara do Tio Ademir Cicuto. Tio porque no interior é assim mesmo. Mesmo que o grau de parentesco não exista biologicamente, passa a existir na mesa do café da tarde, com o legítimo pão-de-queijo, que não vem no pacotinho e não é congelado. “Se é amigo do meu sobrinho, é gente boa”, explicou o Tio Junior, outro tio que fiz nas andanças por Tupaciguara. Mas voltemos ao personagem principal dessa crônica. Quando chega em casa, Zequinha se torna o centro das atenções. O “pito” pendurado na boca, a cachaça caseira no copo e o sorriso no rosto. Todos os “garotos criados com vó” sentam-se perto dele para escutar os inúmeros “causos” e histórias da roça. Todas as mulheres são tratadas cordialmente como princesas ou deusas. A cada prosa uma lição, mesmo que aparentemente não possamos encontrar lições em suas aventuras amorosas pelos currais. Sua linguagem chega a estranhar inicialmente, mas depois nos acostumamos. Tanto nos acostumamos que passamos a falar como ele fora da chácara. O título dessa crônica é um de seus bordões. Depois de cada caso em que nosso protagonista ri de suas próprias desgraças ou infelicidades, ele conclui: “é triste, mas é verdade.”
Mesmo falando tão diferente e às vezes com expressões que não conhecemos, a comunicação com Zequinha flui fácil. Pude perceber que ele se comunica mais fácil que muito doutor e mestre com quem converso diariamente para agendar uma entrevista. Quando alguém lhe perguntou sobre a diferença entre a abóbora e a moranga, veio o silêncio. Depois de titubear, Zequinha concluiu: “Abóbora é abóbora e moranga é moranga. Caqui é caqui e tomate é tomate, uai”. Raciocínio brilhante e lógico por demais para nós, que sempre procuramos explicações complexas para tudo. Às vezes vale a pena fugir do concreto e do gás carbônico das grandes cidades para sentir o cheiro da chuva conversando com um Zequinha por aí…Por aqui a chuva não cheira. Causa estragos e desmoronamentos de terra nos noticiários, assim como na matéria que editei no meu primeiro dia no retorno ao trabalho. Na fazenda, é sinal de prosperidade e oportunidade para uma boa prosa.
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A rebelião das máquinas
09/04/08
Peço permissão à Schawrzenegger para usar o nome do terceiro filme da famosa trilogia “Exterminador do Futuro” para tentar explicar o que aconteceu na manhã dessa quarta-feira. Em proporções um pouco menores (não, nenhum robô quase imortal ameaçou a vida no planeta), as máquinas se rebelaram e quase impediram um jornal de ir ao ar.
São 4h. Chego à empresa e começo minha rotina ainda solitária de trabalho. Ligo meu computador e tento imprimir uma pauta para o motorista buscar o entrevistado do estúdio. “Não foi possível completar a impressão”, é a mensagem que surge acompanhada de um X vermelho daqueles. “Deve ser algum problema de configuração das impressoras”, penso comigo e escrevo o que preciso à mão e entrego para o Poeira, famoso por sua velocidade em atender as demandas e deixar os outros comendo poeira…Tento acessar minha caixa de emails para saber a previsão do tempo para o dia, que aparece sempre no primeiro bloco do jornal. Outro aviso semelhante ao da impressão aparece. Ligo para o também solitário funcionário do MG Tempo e pego a previsão por telefone. O editor-chefe aparece. Sofre com os mesmos avisos e insucessos ao tentar acessar seu email e até mesmo a internet. “O rapaz da informática deve chegar às 5h30, Fred”, me avisa ele. Se ele chegar 5h30 e resolver o problema, sem problemas. O jornal vai ao ar 6h30, então terei uma hora para resolver tudo que ainda falta. Aprendi que uma hora em televisão é uma eternidade.
Passam das 5h30. O “rapaz” da informática atrasou logo hoje, em que as máquinas teimam em dificultar meu trabalho. Ele aparece cerca de 10 minutos depois, com um andar apressado e feição preocupada. Tenta entender o problema e não encontra respostas. Fico imaginando quantas reclamações ele já deve ter recebido desde que apareceu para trabalhar nesta madrugada. Sem soluções, preciso usar a impressora com urgência. Precisamos gravar offs de 5 notas cobertas que aguardam pela voz do apresentador. Como fazer? À moda antiga. Quando estou terminando de escrever à mão um off daqueles, o editor-executivo grita ao fundo: “consegui imprimir!”. Fico com raiva pelo desperdício do meu trabalho braçal, mas logo fico satisfeito, já que faltavam mais 4 offs a serem copiados. Como sempre acontece com essas coisas de informática, ele conseguiu “enganar” o sistema e imprimir fora da rede. Resolvidos os problemas dos offs, meu grande problema agora seria rodar o jornal (imprimir as laudas para cada um dos setores que precisam estar com elas nas mãos com o jornal no ar). Dessa vez, conseguimos imprimir tudo em uma impressora mais lenta, que eu sempre odiei, mas que hoje salvou a lavoura! Volto à redação e o caos está instaurado. Produtores, editores, repórteres, todos já chegaram e estão desorientados com a falta de acesso à internet. Imaginem. Sugestões de reportagem e releases nas caixas de email. Leitura dos outros jornais pela internet. Impressão de pautas, etc…Quase todo o processo depende da bendita rede…Escuto os jornalistas mais velhos resmungarem.“No meu tempo num dependíamos dessas máquinas…”. Mas hoje dependemos. E como. Arrisco-me a dizer que hoje os computadores e a internet são tão essenciais quanto água e luz em uma empresa. Viajo sobre os resultados de uma pane dessas em outros setores. Hospitais, companhias de transporte e qualquer pequeno estabelecimento que use um computador. Catastróficos, sem dúvidas. Mas, entre reclamações e perrengues, o jornal está no ar.
O telespectador, ainda sonolento, pouco ou nada tem a ver com isso. Recebe o seu “Bom dia” do apresentador e acompanha mais um jornal sem saber que hoje fizemos jornalismo à moda antiga…
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Uma biblioteca ou um buteco?
(gravação do cd da banda de samba Chapéu Panamá)
Os pés descalços do vocalista Renato Rosa indicam: eles estavam em casa. Ou melhor, no boteco. Transformar o sóbrio teatro da Biblioteca Pública Estadual em um boteco não é tarefa fácil. E olha que nem cerveja tinha. Como eles conseguiram? Fica fácil quando se toca para amigos. E o Chapéu continua tocando para amigos, mesmo que a banda já esteja merecendo a atenção daqueles que não conheciam a qualidade do som dos jovens universitários “atrevidos” que teimam em se intrometer no tradicional cenário do samba mineiro. Mas agora eles já não se intrometem. São convidados de honra, ou até mesmo anfitriões.
Bons anfitriões que são, continuam agradando seus convidados, a platéia, com boa música. Platéia que, nesse sábado, insistia em sambar em um teatro. Um samba diferente, é verdade. Os ombros balançavam regidos pela flauta de Cacá Campos. Os pés batiam no chão no ritmo dos cavaquinhos de Dudu e Bruninho. As cabeças chacoalhavam com o chocalho e com o pandeiro dos irmãos Procópio. Mas a garganta, essa sim, podia trabalhar como sempre. O que se viu foi um belo coro comandado pelo maestro Renato Rosa cantando composições que falam da Pampulha, de sopa e de bigode.
Os integrantes do grupo são 10, mesma nota do espetáculo desse sábado. Aliás, se algumas pessoas usam a palavra “espetáculo” como sinônimo para uma apresentação musical elas acertariam em cheio dessa vez. Os instrumentos musicais usados no show foram vários. Mas a certeza de quem teve o privilégio de acompanhar a evolução dessa banda é única: eles ainda vão fazer muita gente sambar por aí, mesmo que seja em um teatro.
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Nada demais
(crônica produzida para a disciplina “Oficina de redação em Jornalismo II, na UFMG)
Pessoas falando alto. Situação essa normal em um bar. Uma senhora de vermelho foge à regra. Não é possível que ela esteja se expressando naquele tom de voz. O homem que a escuta, meus pêsames se for o marido, parece não ligar. Deve estar acostumado, ou anestesiado. Algumas cervejas depois, chega o tal frango a patureba. Patureba? Como são conhecidos os cidadãos de Patos de Minas que abandonam a cidade. O dono do bar é de lá, me conta um garçom. Comida boa, nada de excepcional. O frango da minha tia do interior é muito melhor. “Esse ano num tem pra ninguém!”, digo falsamente ao dono do bar que veio até minha mesa perguntar minha opinião. Falsamente pois tinha dito o mesmo para o dono de outro bar do “Comida di buteco” que visitei no domingo. Mais vale ser educado do que dizer uma verdade? Reflexão difícil para um freqüentador da vida boêmia…
