Reportagens

Reportagens publicadas durante o tempo de estágio no Projeto Manuelzão (www.manuelzao.ufmg.br)

Pedra sabão: esculpindo perigos

Saúde de artesãos que lidam com essa matéria prima é motivo de preocupação


por Carolina Silveira e Frederico Machado


Panelas, santos e jogos de xadrez feitos de pedra-sabão, matéria prima das obras que tornaram famoso o escultor Aleijadinho, são algumas das lembranças que podem ser encontradas em cidades históricas como Ouro Preto. O que nem todos sabem é que o manuseio desse material no processo de produção pode causar danos graves à saúde. Em Ouro Preto, estima-se que cerca de 3.000 pessoas estão expostas a essa matéria-prima, situação que tem motivado estudos e debates. O objetivo é evitar que a tradição represente um risco à saúde dos trabalhadores, alguns dos quais crianças e adolescentes.


Todas essas questões ganharam repercussão a partir de uma denúncia feita em janeiro deste ano (2006) pela revista do Instituto Observatório Social, organização ligada à Central Única dos Trabalhadores. Segundo a denúncia, estaria sendo utilizada mão de obra infantil nas minas que extraem pedra-sabão na região. A denúncia ainda está sendo investigada pelo Ministério Público, mas já serviu para colocar em discussão uma série de outras questões. Na produção artesanal, por exemplo, é conhecida a participação das crianças e adolescentes na confecção de peças e, mais do que isso, os riscos a que todas as pessoas dessas comunidades estão expostas. Dentre as conseqüências do processo de trabalho, estão problemas como possibilidade de cortes, doenças por esforço repetitivo e o principal deles, problemas respiratórios decorrentes da inalação da poeira.


UM DOS PRIMEIROS trabalhos de levantamento desenvolvidos na região resultou de uma tese de doutorado da nutricionista e professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Olívia Bezerra. Tendo como referência a comunidade da Mata dos Palmitos, localizada no distrito de Santa Rita, um dos objetivos da pesquisa era entender uma doença ainda pouco conhecida no universo do trabalho do artesanato: a talcose (ver Box 1). A tese foi defendida em 2002, na UFMG. Para isso, foi preciso conhecer a realidade dessa comunidade. A Mata dos Palmitos possui cerca de 180 habitantes, sendo que 75% vivem de atividades ligadas à pedra-sabão, segundo dados da pesquisa.


A talcose é uma doença irreversível, pode apresentar sintomas até 30 anos após a exposição e não possui tratamento eficaz. Não existem dados no Brasil sobre o que seria uma exposição segura ao talco. Segundo Olívia, é indispensável acompanhar tanto as pessoas que já foram identificadas quanto as que ainda não apresentam sintomas. A pesquisa identificou cinco pessoas contaminadas e 11 suspeitos.


A identificação da talcose, entretanto, demanda estrutura especializada tanto para realização quanto análise dos exames, o que dificulta o diagnóstico. A UFOP adquiriu um equipamento para realizar esse diagnóstico e aguarda montagem da estrutura física. A Prefeitura, por sua vez, deu início, em abril, ao Programa Municipal de Saúde do Trabalhador. Os trabalhadores estão realizando exames e sendo acompanhados por um médico do trabalho.


O controle da exposição à poeira do talco esbarra em uma série de questões. Como explica Olívia, não é possível pedir a essa comunidade que pare uma atividade que é centenária e que garante seu sustento. Por outro lado, o uso de equipamentos de segurança também não é fácil. A médica do trabalho do Centro de Referência Estadual em Saúde do Trabalhador da UFMG/SUS-MG, Elizabeth Costa Dias, cita o exemplo da máscara que, por ser incômoda, é facilmente abandonada. Para ela, a solução passa pela mudança das condições de trabalho para eliminar a poeira.


E se o trabalho com a pedra-sabão já acontece há muito tempo, porque agora se tornou um problema? Olívia e Elizabeth explicam que na década de 80 foi feito um trabalho na comunidade para diversificar e aumentar a produção. Uma das iniciativas foi levar luz elétrica. Com isso, o torno, que ficava na beira do rio foi para perto de casa, aumentando a exposição à poeira. Resolvia-se um problema, mas criava-se outro. “Houve uma intensificação da produção, da exposição à poeira e da degradação ambiental”,explica Elizabeth.


Box1- Entenda a talcose

Da pedra-sabão origina-se o talco, utilizado na indústria de cosméticos, por exemplo. A inalação do talco acarreta a talcose, que é uma pneumoconiose, enfermidade pulmonar causada pela deposição de poeira (mineral ou orgânica) nas vias respiratórias. Quando as partículas são muito pequenas e não podem ser retidas nas vias superiores, como as narinas, entram no pulmão e se depositam nos alvéolos. Isso desencadeia uma reação inflamatória, causada pelas enzimas liberadas pelas próprias células de defesa do organismo que não conseguem digerir a partícula estranha. Após a inflamação, ocorre a cicatrização:a fibrose pulmonar. A conseqüência é a rigidez do pulmão, que causa dificuldade respiratória. Outro problema é que a pedra-sabão contém partículas de asbesto, fibra muito pequena também chamada de amianto, que pode causar a asbestose, a mais grave das pneumoconioses, e câncer. O Governo Federal possui programa de acompanhamento de trabalhadores expostos a agentes químicos, dentre eles, o asbesto. Segundo a Secretaria de Saúde de Ouro Preto, já foi feito contato com o governo, mas não há prazos para a inclusão dos artesãos no programa


Box2- Presença de crianças

Segundo Elizabeth, da UFMG, no caso das crianças e adolescentes, as conseqüências da exposição ao talco se agravam, tendo em vista que elas estão com o aparelho respiratório em formação pelo menos até os 18 anos. “Qualquer lesão nessa fase tem repercussões mais graves do que teriam na idade adulta”, explica Elizabeth. Após a denúncia, o número de crianças atendidas no município pelo Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) aumentou de 60 para 180. O maior desafio está, entretanto, no trabalho em casa. “O trabalho infantil no âmbito familiar é um dos mais difíceis de se combater devido ao fato de que quem permite é que deveria proteger”, afirma a coordenadora da Comissão de Políticas Públicas do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente de MG, Regina Mendes. A representante do PETI em Ouro Preto, Josiane Gerônimo, conta que a maior dificuldade é colocar para os pais que aquilo é um trabalho. Regina também lembra que a criança não tem que ser responsável pela sua própria manutenção econômica e nem da família. Mas a realidade é que as famílias dependem da renda gerada pelo trabalho das crianças. Dessa forma, como explica Regina, as famílias também precisam de ajuda para avançarem na qualificação e terem uma melhor inserção no mercado de trabalho.

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Por que o mundo está mais quente?

(jornal Manuelzão de Março de 2006)

O homem influencia, mas não é o única responsável por mudanças climáticas


Frederico Machado e Vanessa Costa


Tsunami na Ásia. Furacão “Katrina” nos Estados Unidos. Seca na Amazônia. Temperaturas extremas no hemisfério norte. A mídia tem noticiado grandes catástrofes climáticas nos últimos tempos. O aquecimento global é apontado como a principal causa da intensificação desses fenômenos, mas esse aquecimento é real? E qual a influência do ser humano na alteração da temperatura terrestre?


O pesquisador do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Rubens Vianello, explica que o Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC) verificou que realmente houve um aumento da temperatura do planeta Terra nos últimos anos. O IPCC é um grupo internacional formado por mais de 100 países que trabalham no estudo das mudanças climáticas globais. De acordo com o grupo, essa elevação da temperatura terrestre tem por conseqüência uma ampliação da intensidade desses fenômenos adversos onde eles já aconteciam e o aparecimento onde eles ainda não ocorriam.


Vianello explica que o aquecimento global é resultado do somatório do aquecimento natural planetário com a intensificação do efeito estufa pela ação humana. “Antes de o homem existir na superfície da Terra, ela já era um planeta sujeito a mudanças climáticas. Com o início das atividades agrícolas, e mais recentemente, de 200 anos para cá, com a industrialização, o homem passou a ser também fator atuante”, afirma.

O aquecimento do planetário, além da intensificação do efeito estufa, se deve ao fato de a superfície terrestre ter a capacidade natural de reter energia e, por isso, passar por períodos de aquecimento (eras interglaciais) e de resfriamento (eras glaciais). A professora do Instituto de Geociências da UFMG (IGC), Magda Luzimar de Abreu, explica que a quantidade de energia retida varia, por exemplo, de acordo com a inclinação do eixo da Terra e de sua órbita em torno do Sol. Esse mecanismo de alteração da energia retida funciona de maneira natural em espaços de tempo muito grandes – a cada 22 mil, 40 mil ou 100 mil anos, dependendo da causa. Atualmente estamos em uma era interglacial.


As ações humanas não interferem nas eras glaciais e interglaciais: o homem pode influenciar o aquecimento intensificando o efeito estufa, mas são fenômenos de grandezas diferentes. O efeito estufa é um mecanismo natural de aquecimento do planeta Terra sem o qual seria impossível a vida aqui. Porém, as atividades humanas produzem determinados componentes químicos, como o dióxido de carbono (CO2), que aumentam essa capacidade da Terra de reter calor. “A atmosfera não percebe essa interface entre o natural e o que o homem faz. Ela só vê se deram mais calor ou menos calor para a superfície. Se ela tiver mais energia, ela vai modificar sua forma de ação”, diz a professora.


Magda Luzimar acredita que as ações para diminuir as interferências humanas são responsabilidade de todos. É preciso diminuir o uso de sprays e combustíveis fósseis e acabar com as queimadas. “Acho que a educação é fundamental, porque colocamos todo o peso das decisões nos tomadores de decisão e não fazemos a nossa parte”, conclui.


O que aconteceu em Minas Gerais?

Janeiro é mês de calor em Minas, mas este ano as temperaturas do estado foram mais altas que nos anteriores e o nível de precipitação bem mais baixo (ver gráfico). As temperaturas elevadas são resultado do aquecimento global natural somado ao aumento do efeito estufa, já a falta de chuva é conseqüência de um fenômeno natural conhecido como veranico, período de estiagem prolongado dentro da estação chuvosa. Segundo o pesquisador Vianello, o veranico já aconteceu outras vezes em Minas, mas é um fenômeno anômalo. Além disso, não há como prever sua incidência, já que, apesar dos avanços nas previsões do tempo (aquela que se refere a dias consecutivos), as previsões climáticas (que se relacionam a períodos mais longos) ainda são um desafio para a ciência.


Faz mais calor na cidade?

Quando começou a se aglomerar em centros urbanos, o homem passou a interferir no clima desses locais. Várias escolhas adotadas na construção das cidades propiciam essas alterações climáticas, gerando um fenômeno chamado ilhas de calor (ver ilustração). Ilha de calor é uma anomalia térmica, onde o ar da cidade se torna mais quente que o das regiões vizinhas. Esse aquecimento é causado por uma série de fatores, como a retirada da cobertura vegetal e a redução das superfícies líquidas em contato com a atmosfera (canalizações, por exemplo), o que diminui a evapotranspiração, perda de água pelos processos de evaporação do solo e transpiração das plantas.

Outro problema são as construções que usam materiais de elevada capacidade de absorção de calor (asfalto, concreto, vidro) e que interferem na circulação dos ventos. Vianello explica, entretanto, que quando o sol se põe observa-se um fenômeno oposto. “Esses mesmos materiais, que durante o dia absorvem muito calor, de noite também perdem muito. Então a tendência é que, pela madrugada, esses centros urbanos esfriem mais que a região circunvizinha”, explica.

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Na rota da gripe

(jornal Manuelzão de Março de 2006)


Frederico Machado

Notícias em jornais de todos os países. Com os casos em humanos, a gripe aviária, que antes preocupava somente os criadores de aves, agora é assunto mundial.

A gripe aviária é causada por um vírus do tipo Influenza. Dentre os subtipos do Influenza, o H5N1 é o que mais vem causando mortes em aves e o que mais matou humanos. As aves se infectam ao entrar em contato com excreções de outras que carregam o vírus e podem não apresentar sintomas.

Apesar da Organização Pan Americana de Saúde afirmar que a Influenza H5N1 permanece uma doença de aves, estima-se que mais de cem pessoas já morreram. Segundo o médico e professor da Unicamp, Luiz Jacintho Silva, o risco de contágio é pequeno, apenas quando se manuseia uma ave doente ou que tenha acabado de morrer.

Outra preocupação surgiu com o aumento dos casos em humanos: a transmissão interpessoal. Especialistas afirmam que a transmissão entre nós é quase impossível atualmente, mas mutações podem criar um novo vírus com maior capacidade de transmissão. “Com a combinação de um vírus de gripe comum dos humanos com o da Influenza aviária, um novo vírus pode se espalhar”, afirma o professor da Faculdade de Medicina da UFMG Manuel Otávio da Costa Rocha.

E o Brasil? “Não existe H5N1 no Brasil. Ele pode chegar por contrabando de aves infectadas”, afirma Manuel Otávio, mas em relação às aves migratórias, tranqüiliza: “não existe migração direta das aves de regiões infectadas para o Brasil. Existe a possibilidade de fluxos migratórios trazerem o H5N1 para cá, mas seria um exercício complexo, passando por outras rotas.” Já o Ministro da Saúde, Saraiva Felipe, afirmou no último dia 23 de fevereiro que é “bobagem” tentar impedir que a gripe chegue ao Brasil. Segundo ele, o vírus entrará em razão do ciclo migratório. O professor da UFMG afirma entretanto que, mesmo se o vírus percorrer esse trajeto, ainda sim as chances de uma epidemia seriam pequenas, já que essas rotas chegam a regiões de baixa densidade de criação de aves, como Pantanal e costa do Nordeste.

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Os canais da polêmica


(jornal Manuelzão de Março de 2006)


Saneamento com canalização de córregos em Contagem causa questionamento


Frederico Machado


Combater doenças, evitar deslizamento de terras e melhorar o tráfego local. Para tentar atender a essas reivindicações da população, a Prefeitura de Contagem vem realizando, desde 2003, obras de saneamento na cidade. Entretanto, em alguns trechos das obras, para instalar os interceptores e coletores de esgoto, os córregos passaram por canalizações, intervenções em que o leito dos cursos d´água é alterado, passando, as águas, a correrem em canais retos revestidos por materiais resistentes, como pedra e concreto. E essas intervenções vêm gerando polêmica.


Essas obras fazem parte de um convênio assinado com a Copasa em 2003, que prevê a despoluição e tratamento de 17 córregos da cidade. Oito deles já tiveram suas obras iniciadas. O investimento total é de R$116 milhões, sendo 70% dos recursos da Copasa e o restante da Prefeitura. A previsão é de que as obras de saneamento terminem no final de 2009.


Adotada pela maioria das grandes cidades, a prática da canalização vem sendo questionada. Para o coordenador do Plano Diretor de Drenagem de Belo Horizonte, José Roberto Champs, “essa forma tradicional de engenharia, que procurou solucionar a evacuação rápida das águas do meio urbano, na verdade excluiu o córrego da cidade”.

Um dos principais problemas trazidos pela canalização é o aumento da velocidade da água (canhão hidráulico), causando inundações rio abaixo e morte da comunidade aquática. Exemplo disso pode ser visto no final do trecho canalizado do Ribeirão Arrudas, em Sabará: as margens estão sendo destruídas pela força das águas. Belo Horizonte será afetada diretamente pelas obras de Contagem. “As águas dos córregos Água Funda e Sarandi trazem grande quantidade de poluição e sedimentos para a lagoa da Pampulha. Essas canalizações deverão agravar essa situação. O canhão hidráulico poderá agravar as inundações que hoje já ocorrem nas imediações do Zoológico de BH”, esclarece Champs.


O coordenador de Planejamento Ambiental da Prefeitura de Contagem, Paulo Maia, justifica que, para se implantar os interceptores da Copasa com segurança, muitas vezes, são necessárias intervenções para dar estabilidade às margens contendo o movimento de terra no local. Ele afirma que as canalizações nas obras de Contagem são feitas como “último recurso”, e as justifica devido às ocupações indevidas das margens e falta de verbas para um tratamento de renaturalização dos rios. “A remoção de uma família hoje está beirando 30 mil reais. São milhares de famílias nas margens dos córregos”, afirma o coordenador. Para Paulo, com a quantia despendida para a desapropriação de uma faixa com maior número de famílias, “ao invés de tratar os 20 córregos, trataria-se uns três”. Mas é bom lembrar que, a médio e longo prazo, a manutenção e limpeza de trechos canalizados e os prejuízos das inundações também demandam significativos esforços financeiros.


A Copasa prefere não entrar na discussão dos possíveis impactos causados pela canalização. “Precisamos retirar esgoto dos córregos e tratar esse esgoto. Se o tratamento de fundo de vale está certo ou errado isso é um problema do município e do órgão ambiental”, afirma o assessor da Diretoria Metropolitana da Copasa, Rômulo Perilli.

Mudanças

Além de ter sido licenciada de acordo com legislação antiga, o acordo entre a Prefeitura de Contagem e a Copasa foi assinado na gestão anterior. Segundo Paulo Maia, houve uma mudança de paradigma nas obras. “No caso do Ibirapitanga, houve uma modificação do projeto original, no sentido de fazer um tratamento naturalístico das margens nos trechos de montante, preservando nascentes e vegetação sempre que possível”, exemplifica Paulo.


Verônica Reis, conselheira do Comac (Conselho Municipal de Meio Ambiente de Contagem) que mora na região próxima ao Ibirapitanga há 14 anos, acredita que as mudanças nos projetos poderiam ser maiores, mas ressalta o valor do envolvimento da população na revisão dos projetos: “a luta foi válida. Só fizeram as mudanças por causa das denúncias.” Ela conta que o Núcleo Manuelzão do Ferrugem teve participação ativa nas reuniões do Comac e também foi responsável por encaminhar a denúncia sobre as irregularidades ao Ministério Público.


Apesar da revisão nos projetos originais, o Ministério Público, a pedido da Promotoria de Defesa do Meio Ambiente de Contagem, solicitou uma vistoria nas obras. Ainda não há previsão para a divulgação dos resultados dessa perícia.


Problemas nas obras

As canalizações em Contagem foram licenciadas pelo próprio município e não pela Feam. O licenciamento se deu de acordo com a legislação da época, que permitia a alguns municípios licenciar intervenções desse tipo. Hoje, em uma escala que vai de um a seis, as canalizações são enquadradas em classe cinco e são de responsabilidade da Feam. O município pode licenciar até a classe quatro e essa permissão é resultado de um convênio assinado entre a Prefeitura de Contagem e a Semad (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável).

A gerente da Divisão de Saneamento da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM), Denise Bruschi, explica que houve essa mudança porque estava havendo “uma canalização indiscriminada no estado”. Denise conta ainda que a FEAM não interferiu no licenciamento dessas obras e apenas checou se havia ou não a documentação necessária.

Um laudo pericial elaborado pelo Projeto Manuelzão, a pedido da Promotoria de Defesa do Meio Ambiente de Contagem, apontou vários impactos ambientais nos trechos canalizados. O laudo ressalta ainda que há locais em que poderiam ser dadas outras soluções ao invés da canalização, como a criação de parques, os chamados parques lineares. Além de técnicos do Manuelzão, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) também visitou os locais das obras e confirmou que as intervenções estão causando erosões nas margens em áreas de preservação permanente.

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O espetáculo vai começar

(jornal Manuelzão de Marco de 2006)

FestiVelhas Manuelzão apresenta a diversidade cultural da bacia


Flávia Ayer, Frederico Machado e Lívia Furtado


Artistas, poder público, educadores e sociedade civil de toda a bacia do Rio das Velhas reunidos durante cinco dias em um grande encontro de cultura e arte, o FestiVelhas Manuelzão. O festival, que ocorre de 11 a 15 de novembro, em Morro da Garça, é o pontapé inicial de um movimento cultural permanente, que pretende trabalhar a conservação, a recuperação ambiental e a cultura de forma indissociável e valorizar as expressões culturais e artísticas da bacia do Velhas. Despertar a consciência ambiental e a integração homem – natureza é justamente o intuito do idealizador do Festivelhas, o Projeto Manuelzão. “O Festivelhas inaugura concretamente a agenda cultura da bacia, fazendo com que a arte e suas várias manifestações possam unir as pessoas da comunidade para discutir os problemas do planeta Terra”, explica o coordenador geral do Projeto, Apolo Heringer.


O FestiVelhas é realizado pelo Projeto Manuelzão em parceria com a Prefeitura de Morro da Garça e a Cria Cultura!, empresa de produção cultural. Durante mais de um ano, a equipe do Projeto desenvolveu e amadureceu o conceito do festival. De evento, ele se transformou num movimento abrangente, que começou bem antes, com o envolvimento de mobilizadores, escolas, prefeituras, ambientalistas, rádios comunitárias e agentes culturais.


“Cuida do rio é cultura”

Nessa entrevista, a Diretora do Centro Cultural da UFMG, Regina Helena da Silva, a Lena, discute cultura e meio ambiente.

Manuelzão – O que é cultura e qual a sua relação com o meio ambiente?

Lena – É preciso pensar a cultura para além das Belas Artes e entendê-la como costumes, práticas sociais cotidianas, formas de interação com o ambiente e com a sociedade. Nós constituímos o lugar a partir da forma como nos relacionamos com ele. Salvar o rio não significa só que a água fique limpa. Tudo isso faz parte da cultura. Cuidar do rio é cultura.


M – Como desmistificar o conceito de arte ligado apenas ao erudito?

L – A arte é uma linguagem com variadas possibilidades de expressão. Uma delas foi chamada de erudita e a outra de popular, que é a do violeiro que nem se considera artista, mas um tocador. Acho que temos uma função: instituir lugares onde esses dois tipos de artistas apareçam como interlocutores, mostrando que eles têm o mesmo valor. Temos que acabar com o discurso de “vamos levar a cultura, o cinema para os pobres”.

Diversidade

A diversidade cultural é a essência da primeira edição do FestiVelhas Manuelzão. As inscrições foram abertas para os 51 municípios da bacia do Rio das Velhas e quatro municípios da calha do São Francisco (Ibiaí, São Gonçalo do Abaeté, Buritizeiro e Três Marias). O resultado é uma mostra cultural diversificada, que reúne artistas das minas e dos gerais, incluindo a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Segundo os organizadores, apesar de 85% da população da bacia residir em Belo Horizonte, houve equilíbrio quanto ao número de artistas selecionados: dos 123, cerca de metade é da capital e a outra metade, do interior. A seleção ocorreu em sete categorias: dança, teatro, música, artes visuais, circo, literatura, cinema e vídeo. Dessa forma, o festival vem revelar a riqueza cultural da bacia: da viola sertaneja ao Hip Hop,do coral lírico ao som do tambor da periferia, da videoarte à contação de estórias, do bordado à história em quadrinhos. Além de apresentações de palco e de rua, FestiVelhas também buscou talentos no campo do audiovisual, do artesanato e da literatura. Fomentar o debate sobre a cultura e sua relação com a educação, o turismo e o meio ambiente é outra preocupação também está na pauta do festival.


“O sertão é o mundo”

Morro da Garça é o palco desse pioneiro encontro de arte e cultura. A cidade está situada em pleno sertão mineiro, no Médio Velhas, distante 200 km de Belo Horizonte. Ali, o morro alto se destaca na paisagem plana do cerrado – contam os moradores que ele servia de guia para tropeiros e viajantes que passavam pela região. Esse cenário aparece inclusive na literatura de Guimarães Rosa (como no conto “O Recado do Morro”). A obra do escritor, que nasceu em Cordisburgo, é a expressão do homem e da natureza do sertão. Para receber o grande número de visitantes, Morro da Garça se transforma. A cidade pacata do interior é invadida por fios de iluminação, aparelhagem de som, palcos e tendas.


PARA A GRANDE maioria dos artistas, o FestiVelhas Manuelzão é oportunidade única para revelar seu trabalho e interagir com grupos de origens diferentes. Para os jovens do grupo de dança Stúdio “Degagê”, “foi uma oportunidade também para contribuir para a cidadania e meio ambiente”, comenta Carla Adriana, responsável pelo grupo de Belo Horizonte, cujo trabalho já envolve esses temas.

Aos 65 anos, o escritor José Hipólito, de Corinto, conta que ser selecionado no FestiVelhas foi uma das melhores surpresas que já teve: “só não caí porque estava sentado.Corinto é uma cidade pequena e fico satisfeito de estar lá representando minha cidade.” O Projeto Manuelzão lança no Festivelhas um catálogo que reúne informações sobre todos os selecionados, que servirá de prêmio para os artistas e de fonte de consulta para agentes culturais, empresas e prefeituras de toda a bacia.

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Biomonitoramento do Rio das Velhas

(jornal Manuelzão de agosto de 2005)

Monitoramento de peixes e bentos aponta trechos degradados e preservados da bacia

Frederico Tavares e Silvia Dalben

Monitorar a vida para avaliar as condições do Rio das Velhas. Com esse intuito, uma equipe do Projeto Manuelzão que conta com sete biólogos e quatro alunos de graduação realiza o biomonitoramento do Velhas e analisa os seres vivos que habitam as águas da bacia. O Projeto conta com um núcleo para sediar as pesquisas: o Núcleo Transdisciplinar e Transinstitucional pela Revitalização da Bacia do Rio das Velhas (Nuvelhas), sediado no Campus Pampulha da UFMG.

O biomonitoramento apresenta dados de vários pontos da bacia e permite detectar se os programas realizados para sua recuperação geram os resultados esperados. A análise é dividida em dois tipos de bioindicadores. Uma parte analisa os peixes e a outra os bentos, organismos que vivem no fundo do rio, afixados na areia, em rochas ou em galhos. Também são analisados alguns parâmetros físico-químicos, como temperatura, pH, oxigênio dissolvido, fatores essenciais para a vida de algumas espécies.

O biomonitoramento de peixes consiste na comparação dos resultados de coletas feitas ao longo do percurso de um rio e seus afluentes. Redes são posicionadas em locais estratégicos e avalia-se a quantidade de peixes e a diversidade de espécies nessas regiões. A coleta deve ser feita nos mesmos locais e com os mesmos critérios, para que se tenha sucesso na comparação.

Devido ao alto custo, apenas uma amostragem foi feita em 1999. Nessa oportunidade, foram feitas coletas em seis locais do Velhas. A intenção dos pesquisadores é realizar essas coletas a cada cinco anos, sendo que há previsão para uma segunda coleta no final deste ano, caso sejam liberados recursos.

Normalmente, a quantidade de peixes de um rio aumenta à medida que se aproxima da foz. No Rio das Velhas, entretanto, o aumento não é contínuo. Com a grande quantidade de esgoto lançado na região metropolitana de Belo Horizonte, a diversidade e o número de peixes no local são muito baixos. “O esgoto aumenta a quantidade de matéria orgânica na água e isso gera a proliferação de bactérias, que consomem o oxigênio dissolvido, reduzindo o número de peixes”, explica Paulo Pompeu, um dos responsáveis pelo monitoramento de peixes.

A expectativa para o resultado da próxima coleta é de melhora na quantidade de peixes, pois a estação de tratamento de esgoto do Ribeirão Arrudas reduz em 30% o lançamento de matéria orgânica na água. “A própria população ribeirinha já nota melhorias, sendo que a água está mais clara e o mau cheiro vem diminuindo”, conta Paulo.

O biomonitormanto de bentos é realizado desde 2003 e a coleta de organismos é feita em 37 pontos da bacia do Velhas. Oito desses pontos são considerados referência por estarem localizados em regiões preservadas. As coletas de organismos são feitas a cada três meses, mas os resultados não são imediatos e algumas amostras demoram de dois a três meses para serem processadas. Por causa disso, ainda não existem resultados que apresentem melhora ou piora da situação do rio, e é preciso mais um ano de coleta para se chegar a dados mais concretos.

Mas os pesquisadores já perceberam que um dos fatores que afeta a diversidade dos bentos é o assoreamento presente em todo o curso do Velhas. “Se o leito do rio já está todo coberto por areia, você tirou dali vários habitats, como pedras e galhos, onde outros bentos estariam vivendo. No leito assoreado, só há um tipo de habitat, a areia, e você encontra apenas organismos que vivem nesse ambiente”, explica Pablo Moreno, um dos responsáveis pelo monitoramento de bentos. Por causa do assoreamento, todo o leito do rio apresenta espécies de bentos muito parecidas, independentemente do grau de poluição dos locais de coleta.

Pior e melhor trecho da bacia

As piores condições do Rio das Velhas são encontradas entre o alto e o médio curso do rio, no trecho próximo à Região Metropolitana de Belo Horizonte. As características são a baixa concentração de oxigênio dissolvido, a alta concentração de coliformes fecais e de materiais suspensos, além de baixa riqueza e diversidade de espécies. Foram encontrados nessa região apenas organismos tolerantes à poluição.

As condições começam a melhorar ao longo do médio curso, com o encontro de afluentes preservados, e o principal responsável por isso é o Rio Cipó, localizado próximo ao município de Santo Hipólito. O Rio Cipó é rico em oxigênio dissolvido, tem baixo teor de sólidos e coliformes fecais e é o rio que apresenta a maior quantidade de espécies de peixes na bacia do Velhas. Ele é uma das esperanças para a recuperação do Velhas, como um berçário para o repovoamento de peixes do curso. “Não seria necessário fazer peixamento, visto que os afluentes desse rio ainda possuem muitos peixes, principalmente o Cipó. Com a melhoria da qualidade da água, os peixes do Velhas voltariam naturalmente”, afirma Paulo Pompeu.

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Jornal: uma nova ferramenta para o ensino(jornal Manuelzão de Agosto de 2005- http://www.manuelzao.ufmg.br/Members/admin/jornal-1-a-32)
Frederico Machado e Verônica Soares

O uso do jornal como instrumento pedagógico está se tornando uma alternativa interessante para muitas escolas. Ao utilizar o jornal como ferramenta de ensino, professores e educadores podem enriquecer as aulas e atrair a atenção dos alunos de diversas maneiras. Desde a simples leitura seguida de debate até a produção de um jornal próprio com o conteúdo estudado em diversas disciplinas é possível ampliar o universo de aprendizado dos alunos e contribuir para uma melhor compreensão do cotidiano.

A professora de matemática da 8ª série da escola Cooperativa de Ensino de Belo Horizonte, Denise Araújo, criou, junto com seus alunos, o Economix, um jornal sobre economia. “Com o jornal se aprende em diversas áreas. Além do aprofundamento na área de economia, que é muito interessante, e sobre coisas que fazem parte do dia-a-dia das pessoas, pudemos aperfeiçoar a parte da leitura e da escrita, além de entender o que é um jornal e seus cadernos”, conta Denise.

Entretanto, para maximizar resultados, uma orientação aos educadores sobre a melhor forma de se utilizar o jornal como instrumento de aprendizagem é indispensável. É o que propõe o Programa Jornal e Educação da Associação Nacional dos Jornais (ANJ).

Esse Programa auxilia os jornais associados a criar e a manter um programa de utilização do jornal nas escolas. Além disso, o Jornal e Educação orienta os educadores e promove a troca de informações entre esses profissionais. “Desse modo, acreditamos que cada programa de leitura aproxima os educadores – e estes aproximam os alunos – de uma análise mais ampla da imprensa e de sua importância na sociedade contemporânea”, explica a diretora do programa Jornal e Educação da ANJ, Carmem Lozza. Atualmente, 50 jornais já possuem seus programas cadastrados e seguem as diretrizes propostas pela ANJ. Para Carmem, através do programa, os jornais conseguem cumprir parte da responsabilidade social frente às desigualdades do país e contribuem para aumentar os índices de leitura entre os brasileiros.

Jaboticatubas

Na Escola Estadual Dr. Eduardo Góes Filho, em São José do Almeida, distrito de Jaboticatubas, o Jornal Manuelzão é utilizado pela professora da 1a a 4a série Jussara Nogueira. Segundo ela, os temas abordados pelo jornal são trabalhados de acordo com os assuntos tratados nas aulas de geografia e ciência. “Eu peço para os alunos lerem, faço uma atividade, recorte, colagem, desenho livre e depois uma produção de textos”, afirma a professora.

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Protocolo de Kioto: primeiro passo foi dado(jornal Manuelzão de Junho de 2005 – http://www.manuelzao.ufmg.br/Members/admin/jornal-1-a-32)
Frederico Machado e Lívia Aguiar

Imagine que um dia as geleiras derretam, o volume dos mares aumente, deixando alguns países e ilhas submersas. Isso não é impossível, já que o homem vem agindo no meio ambiente de forma a intensificar o efeito estufa. (ver box). Para tentar impedir seu aumento, entrou em vigor em fevereiro deste ano o Protocolo de Kyoto.
O Protocolo, elaborado em 1997 no Japão, estabelece metas aos países tidos como desenvolvidos para a redução das emissões de gás carbônico (CO2) em 5% até o ano de 2012, de acordo com as médias de emissão de gases de 1990. O documento foi elaborado para regulamentar as resoluções da Convenção-Quadro das Nações Unidas de 1992, sobre as Mudanças de Clima.

Apesar da maioria dos países ter concordado com a Convenção, nota-se uma dificuldade na adesão de alguns deles para a ratificação do Protocolo. Os Estados Unidos da América, por exemplo, acreditam que a diminuição das emissões de carbono prejudicaria sua economia, devido à quantidade de indústrias que liberam esses gases no país. Mesmo sem a adesão dos EUA, o Protocolo entrou em vigor com a adesão da Rússia, que completou o conjunto de 55 países tidos como desenvolvidos necessários à sua validação.

O Brasil não está incluído nas metas do tratado, mas seu apoio pode lhe dar visibilidade no cenário internacional. Além disso, há a possibilidade de países que precisem reduzir suas emissões implantarem no Brasil os chamados Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL). Esses mecanismos consistem em formas sustentáveis de desenvolvimento, como substituição da energia termoelétrica pela de biomassa. Com esses investimentos, os países cumprem parte de suas cotas fora de suas fronteiras, prática conhecida internacionalmente como Comércio de Carbono. O Brasil já o realiza e vem recebendo investimentos de países como a Alemanha e o Canadá.

Efeito estufa

É um mecanismo que mantém a temperatura do planeta em equilíbrio. Ele é causado pela concentração de gases como o gás carbônico (CO2) e o metano (CH4) na atmosfera. Para isso, os “gases estufa”, em certas quantidades, absorvem parte do calor emitido na Terra, retendo-o na atmosfera do planeta.

Porém, se a concentração desses gases é alterada para mais ou para menos, o planeta entra em desequilíbrio. Com a desordenada emissão de “gases estufa” pelo homem, o Efeito Estufa se intensifica, causando um aquecimento global que pode resultar no derretimento das calotas polares e na alteração do clima do planeta.

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